Segunda-feira, 26 de Julho de 2010

tanto tempo tem o tempo

O Homem é, desde o momento em que nasce , um animal de hábitos.

À medida que vamos aprendizando novas tarefas , acabamos por memorizá-las e por fazer delas um hábito. Há hábitos que aprendemos , mas que acabam por serem subtituídos por nvos hábitos mais adequados à nossa idade e às experiências vividas.

Ainda bebés, habituamo-nos à presença dos nossos pais. Eles estão sempre lá junto a nós. Habituamo-nos a , desde os nossos primeiros anos de vida , contar com a sua presença e ajuda para satisfazer as nossas necessidades mais básicas, fisícas e emocionais.

A mãe, a mulher que nos carregou no ventre durante 9 meses , é a protectora, a alimentadora, é a mão que nos embala  ou nos seca as lágrimas...

O pai também está sempre por perto , embora seja normal que esteja mais ausente , devido à maioria dos pais , especialmente na geração dos meus pais , ser a fonte de sustento da casa, ausentando-se dela para trabalhar.

E a mãe? A mãe acompanha o filho. É uma presença contínua na vida do filho, acompanhando muito mais de perto, sendo mais presente.

Sei bem que cada caso é um caso, mas , quase sempre , os filhos , menino ou menina , acabam por desenvolver uma relação mais forte e de maior proximidade com a mãe , prolongando no tempo a ligação umbilical que um dia os uniu.

Não sei se foi/é assim convosco , mas eu, apesar de gostar muito do meu pai , sempre tive uma relação mais próxima e mais forte com a minha mãe.

 

 

Ainda sou do tempo em que haviam muitas mães a tempo inteiro. A minha mãe era assim , uma mãe a tempo inteiro.O facto de ela ser doméstica e só trabalhar, fora de casa, em ocupações sazonais, fez com que pudesse ser uma mãe bastante presente.

Como eu disse logo no inicio deste post , ''O Homem é, desde o momento em que nasce , um animal de hábitos.''. E é assim até no que toca a hábitos associados a determinadas pessoas.

Desde sempre, ao longo de toda a minha vida, me habituei a ter uma mãe presente. Era um hábito tão habitual (grande redundância esta , eu sei), tão entranhado em mim , no meu dia-a-dia , que acabei por , inconscientemente , tomá-lo como garantido, como um hábito que se perpetuaria no tempo.

A nossa mãe e o nosso pai , apesar de o tempo também os afectar, apesar de terem todas as mesmas fragilidades corporais e emocionais de qualquer ser humano, apesar de serem 'pilares'' que sustentam a nossa existência, apesar de serem os nossos eternos e infalíveis heróis, não são eternos. Também adoecem e também morrem. Foi o que aconteceu com a minha mãe.

Eu já não era uma criança quando o cancro lhe bateu à porta, mas, hoje que, com alguma frieza e distanciamento, penso nisso, acho que até há pouco menos de 2 anos ,altura da sua morte , a julgava eterna.

Ok, eterna tlvez seja um exagero, mas , no minimo , nunca pensei (e acho que poucos filhos pensam) que a minha mãe morresse ainda antes de fazer 60 anos.

La está! Sou um animal de hábitos. Habituei-me a vê-la sempre bem , sempre forte e com saúde, sem grandes problemas de maior. Idealizei uma mulher, uma mãe, à prova de tudo.

Por não pensar sequer que a poderia perder tão cedo, deixei passar em branco a oportunidade de lhe dizer sempre o quanto a amava, o quanto lhe queria bem e lhe agradecia (e ao meu pai , claro) ser o homem que hoje sou. Quando se julga que temos tempo... que temos muito tempo junto daqueles que amamos, descuramos os pequenos gestos , as pequenas palavras...descuramos fazer-lhes sentir o quanto os amamos.

Se há coisa onde sinto que falhei como filho , ter guardado para o amanhã aquilo que poderia e deveria dizer no próprio momento , foi uma dessas coisas.

Durante muitos anos , mais precisamente durante 28/29 anos da minha vida, se há coisa que fiz mal - e sei que fiz muitas, mais ou menos importantes -  essa coisa foi ter deixado por dizer muitas palavras de carinho,apreço e admiração dirigidas, entre outras , à minha mãe.

Foram muitos anos... muitos meses... muitos dias...horas... de pequenos ''nadas'' , de pequenos erros.

No momento em que acordei , despertado pelo cancro que a minha teve e pela possibilidade de que ela sucumbisse às mãos dele, era tarde demais para dizer tudo o que em 29anos tinha deixado por dizer , por fazer.

Hoje , passados quase 2 anos desde a sua morte , sei que faço menos coisas mal , que deixo menos coisas por dizer àqueles de quem gosto, mas fico sempre com a estranha e dolorosa sensação de que passei 29 anos a fazer tanta coisa mal e que , apesar da minha tentativa de fazer melhor , continuo a não fazer tudo do melhor jeito.

O tempo tem tanto tempo. Será que tenho tempo suficiente para ser melhor e para fazer melhor?

É tempo de fazer e de ser mais e melhor!

 

 

 

 

segredo revelado:  “O tempo pergunta ao tempo quanto tempo o tempo tem. O tempo responde ao tempo que o tempo tem tanto tempo quanto tempo o tempo tem.”

É verdade que há muito tempo, mas também é verdade que , na maior parte do tempo, fazemos um mau uso do nosso tempo, ficando com pouco tempo para tudo aquilo e para todos aqueles com quem partilhamos o nosso tempo e um grande pedaço do nosso coração e pensamentos.

Tomar como garantido alguém na nossa vida , é das piores coisas que se podem fazer. Um dia a pessoa desaparece e muitas coisas podem ficar por dizer.

É tempo de fazer bem as coisas, optando por usar bem o nosso tempo.

publicado por segredo_revelado às 17:09
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